Na visão da juíza federal do Trabalho, Taciela Cordeiro Cylleno, o principal impacto da atualização da NR-1, que entrou em vigor ontem no Brasil, talvez não esteja no aumento de ações trabalhistas, mas na mudança de parâmetro que passa a...
Na visão da juíza federal do Trabalho, Taciela Cordeiro Cylleno, o principal impacto da atualização da NR-1, que entrou em vigor ontem no Brasil, talvez não esteja no aumento de ações trabalhistas, mas na mudança de parâmetro que passa a orientar a análise da Justiça – que não é e nem deveria ser, de acordo com a magistrada, o destino natural de seu cumprimento.
“A lógica da norma é preventiva: a atualização estabelece o padrão de diligência a partir do qual será aferida a culpa do empregador em ações que envolvam adoecimento mental de origem ocupacional”, explica a juíza. “Mas o que se espera é que as empresas internalizem esse padrão antes que qualquer conflito se instale”, diz, lembrando que o objetivo da mudança é que o trabalhador não adoeça e, se não adoecer, não haverá demanda a ser judicializada.
Quando, apesar disso, o caso chega ao Judiciário, o que o magistrado terá diante de si é justamente a evidência – ou não – de um esforço genuíno da empresa. “A ausência de gestão documentada dos fatores de risco psicossocial facilita a demonstração de culpa do empregador em ações individuais por adoecimento ocupacional”, explica.
No entanto, o raciocínio inverso também vale, segundo Taciela. “A empresa que construiu um Programa de Gerenciamento de Risco (PGR) sério, aplicou metodologia reconhecida, capacitou líderes, abriu canais de escuta e revisou processos tem condições reais de demonstrar que agiu com diligência e isso pesa na análise da culpa”.
Para a especialista, não se trata de transformar a documentação em escudo burocrático, mas de provar, com evidências concretas, que a saúde mental dos trabalhadores esteve no centro das decisões organizacionais.
Dados revelam o tamanho do problema
Uma pesquisa recente do Ministério da Previdência Social mostra que, em 2025, as licenças por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e já representam a segunda maior causa de afastamento no país. “Esse dado revela o tamanho do problema que a NR-1 vem endereçar”, avalia a juíza federal, reforçando que a atualização da norma diante dos números promove uma mudança estrutural na cultura das empresas. “Antes, a saúde mental muitas vezes era tratada de maneira informal ou reativa; agora, ela passa a ser uma responsabilidade institucional e estratégica, integrada ao PGR e às práticas de segurança e saúde no trabalho”.
Isso pode gerar aumento de ações trabalhistas?
Ao ser questionada, Taciela diz que a pergunta acima pressupõe uma relação que, no ambiente de trabalho, funciona de forma invertida. “A lógica é simples: empresas que mapeiam os fatores de risco psicossocial, implementam planos de ação e monitoram continuamente os resultados estão, na prática, retirando da equação as condições que levam ao burnout, ao assédio sistemático e ao adoecimento”, contextualiza, até chegar na equação final: “menos adoecimento significa menos afastamento, menos conflito e, consequentemente, menos demanda judicial”.
Ou seja, com a prevenção já como obrigação regulatória, a tendência, segundo a magistrada, é que os casos de adoecimento, que são os que geram ações, diminuam. “O objetivo da norma não é criar novos vetores de responsabilização (embora eles existam para quem não cumprir), mas tornar esses vetores desnecessários ao construir ambientes que protejam, de verdade, quem trabalha”, acrescenta.
Principal desafio: diagnosticar antes da crise
Elaborar o PGR, treinar a CIPA, criar um canal de denúncias. São vários os desafios para entrar em conformidade com a lei. Porém, o principal deles, na avaliação da juíza federal, está antes disso tudo: no diagnóstico. “Os riscos psicossociais são mais sutis que um agente físico como o ruído. Eles se manifestam nas interações e na cultura organizacional”, acredita Taciela, que traz detalhes: “identificar qual determinada dinâmica de liderança, modelo de metas ou padrão de comunicação entre equipes tem potencial patogênico, exige uma leitura sofisticada do ambiente que a maioria das empresas simplesmente não está equipada para fazer”.
Entre os obstáculos dessa realidade estão: a dificuldade de perceber sinais precoces de adoecimento emocional; a falta de integração da saúde mental às políticas de segurança do trabalho; e a cultura organizacional ainda baseada em alta pressão por resultados. “A norma exige que a avaliação seja específica por função e setor, logo não basta um questionário genérico aplicado uma vez por ano. Isso implica um ciclo contínuo de identificação, avaliação e controle dos riscos”.
O problema, ressalta a juíza, é que muitas organizações confundem cumprimento com prevenção real. “Incluir uma cláusula no PGR dizendo que ‘a empresa avalia riscos psicossociais conforme a NR-1’ sem nenhuma metodologia, sem resultados documentados e sem plano de ação concreto é, ao mesmo tempo, uma inadequação regulatória e uma omissão ética”, confirma Taciela. “O verdadeiro desafio é que enxergar os fatores que adoecem antes que alguém adoeça exige cultura, não apenas procedimento formal”.